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Diante do Senhor

  • Foto do escritor: Alex Lemos
    Alex Lemos
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura
1 Samuel 2.12–21


Uma das expressões mais conhecidas da tradição reformada é Coram Deo ("diante de Deus") ou Coram Domino ("diante do Senhor"). Ela resume uma das grandes verdades das Escrituras: toda a vida é vivida na presença de Deus.


O reverendo Heber Carlos, ao tratar da onipresença divina, observa que compreender que Deus está em todo lugar — e, mais do que isso, que nada escapa aos seus olhos — deve encher nosso coração de santo temor. A presença de Deus não é apenas um atributo teológico para ser estudado; ela é uma realidade que nos conduz ao arrependimento, à santidade e à obediência.


É exatamente essa verdade que encontramos em 1 Samuel 2.12–21.


O texto apresenta duas maneiras de viver diante do Senhor: para a sua desonra ou para a sua glória.


I. Diante do Senhor para a desonra (1Sm 2.12–17)


Nos versículos 12 a 17, encontramos a triste descrição dos filhos de Eli, Hofni e Fineias. Logo no início do relato, eles são chamados de "filhos de Belial", expressão hebraica que significa homens perversos ou sem valor. Posteriormente, especialmente na literatura judaica e no Novo Testamento (2Co 6.15), Belial passa a ser associado ao próprio maligno, tornando-se símbolo da oposição a Deus.


O texto afirma que "não conheciam o Senhor". Evidentemente, eles possuíam conhecimento intelectual sobre Deus e exerciam o sacerdócio. O sentido da expressão é que não mantinham um relacionamento verdadeiro com o Senhor nem viviam em submissão à sua vontade.


Embora fossem sacerdotes, seu ministério não era prestado para Deus, mas para satisfazer seus próprios interesses.


A Lei determinava claramente qual seria a porção dos sacerdotes nos sacrifícios pacíficos. Conforme Levítico 7.28–36, o peito e a coxa direita pertenciam legitimamente aos sacerdotes, depois que a gordura fosse oferecida ao Senhor. O restante da carne retornava ao ofertante para a refeição sacrificial, simbolizando comunhão entre Deus e o seu povo.

Hofni e Fineias, porém, desprezavam completamente essas determinações.


Primeiro, enviavam um servo com um grande garfo de três dentes para retirar das panelas tudo o que conseguisse alcançar, apropriando-se arbitrariamente da carne dos ofertantes. Não havia qualquer respeito pela Lei nem consideração pelas pessoas. Roubavam indistintamente de todos.


Depois, cometiam um pecado ainda mais grave. Exigiam receber a carne antes que a gordura fosse queimada ao Senhor. Quando o ofertante lembrava que a gordura pertencia exclusivamente a Deus, eles respondiam com ameaças, tomando a carne à força.


O texto conclui:

"Era, pois, mui grande o pecado destes moços perante o Senhor, porque os homens desprezavam a oferta do Senhor" (1Sm 2.17).

Observe a progressão do pecado: eles roubavam do povo e, finalmente, roubavam do próprio Deus. Viviam coram Domino, mas para sua própria condenação.


O filósofo reformado Herman Dooyeweerd ajuda a compreender essa realidade ao afirmar que toda a criação possui um caráter pactual. Desde Adão, toda existência humana acontece diante de Deus (coram Deo). Por isso, não existe neutralidade religiosa: tudo o que fazemos é, em última análise, um ato de adoração ou de rebelião. Toda atividade humana glorifica a Deus ou busca substituí-lo.


Essa é exatamente a realidade apresentada em 1 Samuel 2. Hofni e Fineias exerciam um ministério religioso, mas seus corações estavam longe do Senhor.

Provérbios 15.3 declara:

"Os olhos do Senhor estão em todo lugar, contemplando os maus e os bons."

Quer reconheçamos isso ou não, toda a nossa vida acontece diante do Senhor. Não existe espaço neutro. Cada palavra, decisão e atitude glorifica a Deus ou o desonra.



II. Diante do Senhor para glorificá-lo (1Sm 2.18–21)


Em contraste absoluto com os filhos de Eli, o texto apresenta Samuel.


Enquanto Hofni e Fineias utilizavam o sacerdócio para benefício próprio, Samuel ministrava perante o Senhor, ainda menino. Sua mãe, Ana, fazia-lhe todos os anos uma pequena estola sacerdotal, demonstrando seu cuidado e seu compromisso com o voto que havia feito ao Senhor.


O ambiente espiritual da família de Samuel era completamente diferente. Seus pais incentivavam seu serviço ao Senhor e permaneciam fiéis na adoração.


Mesmo convivendo com a corrupção de seus próprios filhos, Eli abençoava Elcana e Ana, e Deus respondeu concedendo-lhes mais cinco filhos: três homens e duas mulheres.


Então o narrador registra uma das frases mais belas dessa seção:

"E o jovem Samuel crescia diante do Senhor" (1Sm 2.21).

Mais adiante, o texto acrescenta:

"E crescia Samuel, e o Senhor era com ele" (1Sm 3.19).

Também lemos:

"E o jovem Samuel crescia em estatura e no favor do Senhor e dos homens" (1Sm 2.26).

É impossível não lembrar de Lucas 2.52, onde lemos que Jesus:

"crescia em sabedoria, estatura e graça, diante de Deus e dos homens."

Samuel torna-se, assim, um tipo que aponta para Cristo. Ambos crescem diante do Senhor, agradando a Deus e aos homens, preparando-se para cumprir a missão que lhes foi confiada.


Uma vida vivida coram Domino, para a glória de Deus, produz crescimento espiritual, maturidade, serviço fiel e um testemunho que alcança aqueles que estão ao nosso redor. O relacionamento correto com Deus inevitavelmente se reflete na maneira como vivemos diante das pessoas.


Conclusão


A história de 1 Samuel 2 apresenta dois caminhos.


Hofni e Fineias viviam diante do Senhor, mas usavam seus privilégios para satisfazer seus próprios desejos. Samuel também vivia diante do Senhor, mas sua vida era marcada pela fidelidade, humildade e crescimento.


O ministério da casa de Eli estava chegando ao fim. Deus levantaria um sacerdote fiel (1Sm 2.35), que faria tudo segundo o seu coração e a sua vontade. O pecado dos filhos de Eli não poderia frustrar o plano da redenção. Deus continua levantando seus servos, seus profetas, seus sacerdotes e, finalmente, o grande Sumo Sacerdote, Jesus Cristo, para cumprir perfeitamente a sua vontade.


Essa passagem nos lembra que toda a nossa existência acontece diante dos olhos de Deus. Não há neutralidade. Vivemos, trabalhamos, adoramos, servimos e tomamos decisões diante do Senhor.


A pergunta que permanece é simples e profundamente pessoal: estamos vivendo diante do Senhor para a sua glória ou para a nossa própria glória?


Assista ao sermão pregado na Primeira Igreja Presbiteriana de Goiânia.


 
 
 

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© 2025 por Alex Lemos.

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